sexta-feira, 31 de maio de 2013

Quem Vai Ouvir?

E no fim da vida, o que é que fica?
Algumas fotografias escondidas numa caixa de sapatos, que depois dos netos se perderão, e tudo aquilo que fiz, quem vai saber, quem vai contar?
Da mesma forma as cartas de amor, os versos, as caminhadas, as voltas de bicicleta, os antigos amores, as risadas, as lágrimas, o sono perdido, o desespero, a felicidade, o gosto do café, do chocolate, tudo isso, pra onde vai?
O meu nome escrito na lápide não fará meu filho sentir o que eu senti. Pois enquanto eu caminhava olhando o céu observado as estrelas me sentindo pequeno, eu estava só e ninguém estava ali para ver e sentir o que eu sentia. O frio, a fome, a vergonha ou o orgulho, tudo isso se vai com o corpo. São segredos que permanecerão para sempre secretos. Pactos entre um ser humano e Deus. Ninguém estava lá para ver. Ninguém estava lá para ouvir. Depois daquilo tudo se foi e se apagou. É assim que a vida é.
É uma brisa soprando leve, passando entre a janela e trazendo o frio, ou como um feixe de luz que refletindo sobre a água. É breve e passageiro. Leve. Sinto como se fosse ontem, eu, olhando nos olhos dela, me despedindo, pensando que seria para sempre. Não disse pra ela o quanto a amava. Abracei-a e nunca mais a vi.
Tudo isso para perceber hoje que as pernas, peitos e bundas bonitas que desfilam por aí, os corpos fortes e musculosos que andam pela rua, as cabeças cheias de idéias e pensamentos profundos, no futuro, quem se importará? Nossos filhos não viverão nossas vidas, nossos netos não sentirão nossos sentimentos, e tudo estará diferente, nós, nos lamentando, lamuriando, sonhando com um futuro distante ou lembrando um passado remoto, e o suspiro que vai ficar preso na garganta morta, abafada por uma caixa de madeira, enterrada sete pés abaixo da terra, ninguém vai se importar de ouvir.