Aqui estou eu, jogado nesse asfalto, sangrando e morrendo aos poucos. Vejo ao meu redor os curiosos, e as crianças, e os velhos. Nessa hora me vejo sendo apenas mais uma noticia numa página de jornal, mais um numero nas estatísticas.
Meus sentimentos, quem se importa? Sou apenas mais agonizando pela vida, que amanhã ou depois ninguém mais lembrará. Sou apenas mais um que morre como vários outros morreram. Morrendo aos poucos caído no asfalto.
Vejo o sol. É a última vez que o vejo. Nunca senti tanta alegria vendo o sol. E essa alegria, misturada com tristeza; esse mistura de emoções que agora correm pelas minhas veias; essa confusão de sentimentos. Deus.
Tudo ao meu redor agora me parece tão distante e tão próximo. As árvores que nunca mais eu verei, agora se tornam minhas irmãs, que assistem em silêncio a minha vida me escapar por entre cada poro da minha pele. E os pássaros que continuam a levar as suas vidas, da mesma forma como eu nunca me preocupei quando algum deles tinha morrido. E o céu nunca me pareceu tão azul. E as nuvens nunca me pareceram tão brancas. E aquelas poucas nuvens me fazem pensar que hoje não é um bom dia para morrer. “Deve haver poucas vagas no céu hoje”.
O que deve existir depois daqui? O que eu vou encontrar depois da morte? Se existe o paraíso e o inferno, então não estou em uma boa situação. Pobre de mim, que morri desconfiando de Deus. Mas também nunca acreditei no Demônio. Então, Deus, se você existe e estiver me ouvindo, lembre-se que eu não acreditava Nele ok?!
Mas e se depois da morte, tudo seja mesmo aquele filme dos sonhos. Um sonho atrás do outro! Um sonho que nunca acaba. Então estou bem. Pra dizer a verdade, não estou nada bem – eu não queria estar morrendo! E se eu não morresse, eu então iria aproveitaria tanto a vida! Tanto, tanto, tanto!
Quanto tempo ainda me resta? Quantos minutos de vida eu ainda tenho? Ainda existem tantas coisas nas quais eu queria pensar! E que crueldade é morrer sem nos deixar completar um pensamento! E quais serão meus últimos pensamentos?
Não quero morrer sem lembrar dos meus pais. Eu sei que nunca nos demos muito bem, mas eu os amo. E me arrependo de sair de casa ser dar tchau para minha mãe. E meu pai. Quanto tempo faz que não dou um abraço no meu pai?
E meus gatos, como eles ficarão? Espero que eles sejam bem tratados lá em casa. Tomara que meu pai não os abandone. Espero que eles fiquem bem.
Mas se eu morrer, eu não queria morrer sem lembrar-me Dela. Ela que fez tanto bem para minha vida. Ela que me trouxe tanta felicidade. Ela que mostrou o que era amar uma mulher. Eu não quero morrer sem lembrar que um dia eu estive ao seu lado, e que um dia as pessoas nos viam andando de mãos dadas. Eu não quero morrer sem me lembrar que houve um tempo em que ela dizia para mim : Eu Te Amo.
Todas essas pessoas agora, me olhando e me vendo morrer. Nem sabem elas o que se passa aqui dentro de mim. E se todas elas pudessem sentir o que agora eu sinto, o mundo seria tão, tão diferente. Se eu soubesse o que era sentir isso, minha vida seria tão diferente! E agora todos eles devem estar pensando que eu estou chorando porque eu sei que eu vou morrer. Mas não é isso. Eu só queria que eles soubessem que não é por isso que eu choro.
Morri sem a mulher da minha vida ao meu lado. É isso! E como eu me arrependo, como me arrependo. Ela me amava, me amava. E eu a amava tanto, tanto, tanto! Por que duvidei quando o que eu devia ter era certeza. Por que fiz tudo errado quando tive a oportunidade para fazer tudo dar certo. Por que não me entreguei quando era hora de se entregar. Por que? Por que? Eu choro por ela, e ela nunca saberá disso. E eu choro. E eu não sei se é de tristeza ou de felicidade. Esse choro que é por saber que ela está feliz ao lado de outro homem. Essa felicidade que é saber que ela está feliz. E essa tristeza que é saber que não fui eu quem a fiz feliz. Ela está lá. Mas eu estou aqui. E me arrependo de morrer assim. Ao menos eu queria ter ... ter dito ... ter dito pra ela ... que eu ... que eu a am... que eu a ...
'
sábado, 13 de agosto de 2011 – 17:03