segunda-feira, 30 de abril de 2012

Josias

Oi

Os felizes que me perdoem, mas eu sou uma criatura triste por natureza. É melancolia perdida em meio a melodias e poesias que flutuam em meio aos meus pensamentos. Enfim ... quem se importa com os tristes?
Sábado, 28 de Abril, choveu forte aqui em Guaramirim. E no calor do recinto, passei minha noite assistindo a uma boa sequência de filmes. Primeiro 'Três Homens Em Conflito'. Depois foi a vez do diretor francês Krzysztof Kieslowski: ‘A Liberdade É Branca’ e, na seqüência, ‘A Fraternidade É Vermelha’, que na verdade assisti nessa manhã gelada de domingo.
À tarde, saí de casa com a clara intenção de fotografar gente na cidade, mas não queria a agitação do calçadão de Jaraguá do Sul. Queria flagrar o que se passa nos arredores, nas ruas que permanecem inexploradas. Queria crianças brincando na rua, mas, andando e observando, me veio à mente o pensamento - onde tem muro, não tem criança brincando na rua.
Andando pelas ruas desertas, sozinho, eu me perdia em mim mesmo. No pensamento vagavam pensamentos efêmeros, cenas dos filmes, a voz da Adriana Calcanhoto cantando “onde será que você está agora” e os primeiros versos da ‘Odisséia’, de Homero. Enquanto eu caminhava pelo Centro de Jaraguá do Sul a procura de alguma cena interessante, eu ruminava esses versos:

”O homem multiversátil, Musa, canta, as muitas errâncias, destruída Tróia, pólis sacra, as muitas urbes que mirou e mentes de homens que escrutinou, ... “

... e não me lembrava mais como o verso continuava.

Não encontrei a situação que eu desejava. Decidi ir para o Centro de Guaramirim então. Antes de partir, pessoas se aglomeravam frente ao Museu M. Emilio da Silva. Mas não me interessou muito. Mas ficou a dúvida. Alguém dos meus conhecidos sabe o que estava acontecendo por lá?

Já em Guaramirim, encontrei um grupo de amigos caninos.



 Gosto de fotografar os animais na rua. Os cães em particular sempre andam em grupo. Como os seres humanos, eles também preferem o convivo com os amigos.


Caminhando, cheguei até uma casa bem humilde. Lá, os felinos e o cão posaram para mim.



 Shakiro, o cão que, segundo o dono, gostava de assistir a uma novela chamada Shakira.


Pedi ao homem que morava na casa se os gatos e o cão pertenciam a ele e ele respondeu que sim. Fiquei ali, conversando com ele. Em poucos minutos, eu tive a oportunidade de conhecer um pouco da história do Josias.
Imigrante do Paraná, o Josias chegou em Guaramirim faz oito anos. Há oito ele anos mora na mesma casa humilde, pagando aluguel. Ele me disse que é trabalhador autônomo e que o que ganha dá para pagar o aluguel e para comprar o alimento para a família. Atualmente paga 400 reais de aluguel. Ele me convidou a entrar e conhecer a casa. Eu aceitei o convite, muito honrado.
A esposa do Josias está passando por dificuldades. Passou por uma gravidez de risco. O bebê nasceu no sétimo mês de gestação. E a mãe só sobreviveu graças aos médicos, mas ela, infelizmente, não saiu ilesa, e hoje sofre com inúmeras seqüelas da gravidez.
Na casa simples, e passando por dificuldades, o Josias não perde a esperança, e ainda agradece por ter o mais importante: a vida. E mesmo com problemas financeiros, ele me ofereceu pão e café quentinho; e ainda, sem se dar conta, me ensinou uma valiosa lição.
E como continuava Homero, naquele verso que eu não lembrava como terminava:

”... as muitas dores amargadas no mar a fim de preservar o próprio alento e a volta aos sócios.” 


Esse gatinho, arico no começo, logo se acostumou a minha presença. Pedi para ele posar para uma fotografia e pelo jeito ele aceitou. ^^


O presente de Dia Das Mães que a Karoline fez para a sua mamãe.

No primeiro plano, Jaqueline. Ao fundo, sentada no sofá, a esposa do Josias. Em decorrência de uma gestação de risco e de um parto prematuro, onde quase perdeu a vida, ela tem dificuldades para se comunicar e para se locomover. A falta de recursos e de assistência agrava ainda mais a sua situação. 

Josias em sua humilde residência.





segunda-feira, 2 de abril de 2012

Eu

Eu?! O que sou eu afinal? Sou incompleto, aos pedaços, retalhos e lembranças espalhados num corpo só. Sou incompleto, pela metade, e eu, o que sou afinal, nem sei mais. Nem digo nada que é pra não dizer nada, porque quem não tem nada pra dizer é melhor ficar calado. Meu coração dói, bate espremido bem doido no meu peito. Falta-me o ar. Sou incompleto. Sou um ser pela metade. Ando pelas ruas, preenchendo espaços vazios. Eu vejo o sol, eu vejo as nuvens, é tudo o que vejo. Os pássaros vivendo é tudo o que vejo. As pessoas indo e vindo apressadas, é isso o que eu temo. Ninguém nessa cidade pra parar junto comigo. Ninguém nesse mundo pra estar junto de mim. Pois eu sou pela metade. E na verdade nem sei o que dizer. Pensava ser mais criativo do que realmente sou. Pensei ser mais humano do que verdadeiramente sou. Pensei em tanta coisa que tanta coisa me fugiu, virei um quase-nada. Tenho medo. Tenho vergonha. E no fundo eu nem sei quem sou. Sou sozinho e nem sei pra onde eu vou.

De Passagem

Você não sabe, mas eu fui até a sua casa. Você nem imagina, mas pensei em chamar teu nome. Fiquei parado, imóvel. A janela do seu quarto apagada – “ela nem deve estar em casa”. Eu só estava de passagem e pensei em ficar. Quanto tempo faz que não nos falamos? Um mês?! Eu poderia dizer que passou um ano inteiro! E tudo o que eu mais queria era te ouvir. Ouvir tua voz. Sentir tua fala. Senti tua falta. Eu tinha tanto para te contar! Mas você não estava. Eu fiquei imaginando por onde você andava. A cidade - e os mesmos prédios de sempre, e as mesmas velhas casas a minha volta, e as ruas e as avenidas e todos os bares e praças. De algum modo queria encontrar você, assim, por acaso. Sem campanhias, sem interfones, sem palminhas na frente do portão. Queria te encontrar sem mais nem menos. Daríamos um oi, pediríamos um do outro e cada um seguiria seu caminho. Ainda guardo o recado que você me escreveu. Está sendo a oração que repito todos os dia. É o que me faz levantar da cama e ver o sol. É o que me fez sair de casa e vir até você. Você não estava. Sentirei tua falta. Quem sabe um dia a gente se encontra por acaso por aí.