terça-feira, 15 de março de 2011

VESTIGIOS

Choveu o dia intero. A janela do meu quarto permaneceu praticamente fechada o dia todo. O sol, hoje, não conseguiu me visitar.
A cama, desarrumada, aguarda meu próximo sono. A coberta, bagunçada, parece formar uma cadeia de montanhas. E o lençol que a coberta não esconde, parece ser um pedaço de mar. E minha gata preguiçosamente dormindo em cima da praia.
Os livros jogados num canto deste minúsculo quarto, o minúsculo quarto que se pode abraçar. Alguns livros jogados; não todos porém. Alguns livros já aguardam a viajem; pobres livros que já perderam as esperanças de serem lidos por aqui; livros que terão que esperar um pouco mais para ganharem vida. Livros que guardei cuidadosamente dentro de caixas de papelão; as mesmas caixas em que você me mandou um pedaço do teu espírito.
 No ar, músicas que me fazem lembrar você; músicas daquela mesma banda que você me apresentou tempos atrás. E o violão, morando ao lado do armário. Violão amigo que reproduz músicas que serão para sempre minhas e de mais ninguém. Pobre violão amigo; só meu violão mesmo para suportar minha magnífica e extraordinária falta de talento.
Ao lado da cama moram as tuas palavras. E no outro canto brilha os livros que tu me destes. Os filmes e os discos na gaveta não foram de modo algum por mim esquecidos. E no pensamento vive a lembrança de um dia que ainda não chegou. E em todo o quarto, vestígios de uma presença invisível.
Só falta você aqui pra completar isso tudo. Só falta você pra presenciar isso tudo e em tudo isso ver um pouco do meu mundo. Falta você. Falta você aqui pra completar teus vestígios.

sábado, 12 de março de 2011

OBSERVAÇÕES DE UM CORPO SEM ALMA

O sol voltou.
A chuva vestiu as copas das arvores com um delicado manto de pérolas e agora o sol faz brilhar este traje de gala das arvores.
Algumas folhas pendendo das arvores, manchadas com as cores da decomposição, se agarram desesperadamente ao pequeno ramo onde nasceram para não cair ao chão; um sopro e tudo estará perdido. Estas folhas, pintadas como se fossem pequenos leopardos, me trazem ao pensamento a imagem da pessoa amada.
No chão, as poças d’água da chuva que passou. Na água que veio da chuva reflete um céu limpo e ensolarado. E a poça espera pacientemente o sol cumprir o seu trabalho. E o vento sopra e a poça estremece de alegria; um dia ela também será vento, em breve ela estará novamente morando no céu.
E o vento sopra, e a poça estremece de alegria. E o vento sopra, e mais uma folha caída no chão.
Um pássaro, ocupado com a cria talvez, passa voando sobre minha cabeça, e eu não o vejo, só o percebo com o canto dos olhos. Outros pássaros, em outros cantos, gorjeiam; carros e caminhões fazendo barulho; e as máquinas nas fábricas se unindo a esse exército de lata selvagem, tentando calar as vozes dos pássaros. E eu já me pergunto: será o canto do canarinho um canto de alegria, ou será agora que não passa de um canto de tristeza?
E eu, calado como nunca. E esse silêncio exterior esconde o tumulto interior que existe dentro de mim. Meu corpo olha, mas eu não consigo ver. Meu corpo escuta, mas eu não consigo ouvir. Se faz frio se faz calor, e eu sem saber mais nada. Meu corpo está morando aqui, mas minha alma já está vivendo em outro lugar.

TRISTEZA DO MEU SER

Estou triste sem saber o motivo. Triste porque a tristeza me é natural. Triste porque eu sei lidar com a tristeza.
Triste porque nasci e apanhei. Nasci e já me quiseram ver chorando. Depois disso, tudo é tristeza.
A felicidade tem vida própria e me visita quando quer. Não é como a tristeza, que já faz parte do meu ser.
Triste, porque a tristeza faz parte do meu ser.