sábado, 12 de março de 2011

OBSERVAÇÕES DE UM CORPO SEM ALMA

O sol voltou.
A chuva vestiu as copas das arvores com um delicado manto de pérolas e agora o sol faz brilhar este traje de gala das arvores.
Algumas folhas pendendo das arvores, manchadas com as cores da decomposição, se agarram desesperadamente ao pequeno ramo onde nasceram para não cair ao chão; um sopro e tudo estará perdido. Estas folhas, pintadas como se fossem pequenos leopardos, me trazem ao pensamento a imagem da pessoa amada.
No chão, as poças d’água da chuva que passou. Na água que veio da chuva reflete um céu limpo e ensolarado. E a poça espera pacientemente o sol cumprir o seu trabalho. E o vento sopra e a poça estremece de alegria; um dia ela também será vento, em breve ela estará novamente morando no céu.
E o vento sopra, e a poça estremece de alegria. E o vento sopra, e mais uma folha caída no chão.
Um pássaro, ocupado com a cria talvez, passa voando sobre minha cabeça, e eu não o vejo, só o percebo com o canto dos olhos. Outros pássaros, em outros cantos, gorjeiam; carros e caminhões fazendo barulho; e as máquinas nas fábricas se unindo a esse exército de lata selvagem, tentando calar as vozes dos pássaros. E eu já me pergunto: será o canto do canarinho um canto de alegria, ou será agora que não passa de um canto de tristeza?
E eu, calado como nunca. E esse silêncio exterior esconde o tumulto interior que existe dentro de mim. Meu corpo olha, mas eu não consigo ver. Meu corpo escuta, mas eu não consigo ouvir. Se faz frio se faz calor, e eu sem saber mais nada. Meu corpo está morando aqui, mas minha alma já está vivendo em outro lugar.

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