
Eu dormi perto do rio Manso; eu podia ouvir o som da sua correnteza. No céu não tinha estrelas, no mato não tinha bicho. Eu encontrei meu canto escondido entre duas árvores de pinus O vento soprava nas folhas, as folhas dançavam no vento. Tudo era calmo, tudo era sereno. Meus pensamentos é que se agitavam em meio ao silêncio. Angústia. Loucura. A solidão alimentando saudades e perguntas sem respostas. “Ela pensa em mim?” Pensamentos vagos, reflexões sem sentido. Podia ouvir as pessoas se aproximando de mim; alguns carros, algumas motos, vindo e indo pela estrada, que me deixavam assustado e eu deixando as pessoas assustadas. Terrores repentinos.
Não sei o que me levava até ali; se minha vontade de fugir do mundo, se minha vontade de me encontrar em meio a um mínimo de sossego, se minha busca pela minha essência espiritual-filosófica - Idiota! - Se minha incansável vontade de achar um lugar onde eu possa ser eu mesmo simplesmente, sem amarras, sem julgamentos alheios e dedos em riste apontados para minha cara.
Noite solitária sem estrelas. Meus braços, minhas mãos, meu coração sem função alguma. Sem ninguém para cuidar. Sem ninguém para dizer “eu te amo”. Sem ninguém para zelar como os pássaros zelando por seus filhos. Sou um homem que queria ter asas para voar até as nuvens, encontrar anjos, ver Deus. Sinto na pele a dor de ser fraco e frágil. Compartilho da dor dos gafanhotos e das cigarras. Sei que sou como eles afinal de contas. Sou como eles e eles são como eu. Pequenos e frágeis que não perdem a vontade de seguir vivendo. A vida é injusta afinal de contas. Aprendi a lidar com isso. Estou me tornando sábio talvez.
Talvez eu me perca em breve, não sei se no mundo, não sei se dentro de mim mesmo. Quero me perder, preciso disso, preciso de um pouco de loucura, preciso cair na estrada, preciso me machucar mais vezes, me arriscar mais vezes, me tornar mais forte.Meus olhos anseiam por tantas visões, por tantos horizontes e corpos e olhos e lábios; eles ardem, os olhos queimam, e eu vou na direção que meu coração me mandar.
Alimentei grandes sonhos e grandes esperanças e colhi alguns férteis pensamentos e dores sábias, e frustrações também, não sou dono do mundo afinal de contas, talvez nem dono de mim mesmo, desejos brotam por todas as partes, sonhos e mais sonhos e idéias e ideais. E esses pensamentos que me matam aos poucos e que não encontram ouvidos dispostos a ouvir, talvez eu devesse acreditar em Deus ou em anjos; tudo o que eu queria era um anjo esta noite, pra me pegar pelas mãos e me guiar, me mostrar o caminho da felicidade. Mas tudo me parece distante e fora do real. Anjos andam por toda a cidade agora e eles estão tão perdidos quanto eu, se drogando, jogados pelas calçadas e vasculhando latas de lixo atrás de um resto de comida que possa saciar a sua fome.
Não a espaço para felicidade plena em meu coração, pois eu estou me preocupando demais com tudo e com todos. Esses dias eu matei um pequeno besouro negro e cascudo, pisei em cima dele porque estava distraído, mas escutei seu esqueleto se rompendo, seu corpo sendo esmagado, tive vontade de morrer também, não gosto de estar vivo e matar.
Tenho facilidade para a melancolia, e a chuva que caí agora lá fora alimenta saudades e tristezas e brota em mim uma pétala negra e pensamentos profanos. Mas também fui feito para a felicidade, todos nascemos para ela, estou tentando aproveitar todas as coisas, as boas e as más, e não quero me prender as regras pré estabelecidas. Não quero ser diferente nem igual a ninguém. Só quero ser eu mesmo, seja lá o que isso for.
Somos crianças crescidas, perdidas no mundo, perdidas na vida. Corremos contra o tempo sem tempo para nada. Estamos em busca de algo que não sabemos. É assim comigo, não sei se é assim com você.Talvez sejamos apenas anjos sem asas caídos nesse inferno e nessa loucura. Nós dois poderíamos voar se você quisesse segurar a minha mão e apenas sonhar. Mas não há mais tempo para sonhos e para imaginação. Eu sou adulto agora, você também. E nós estamos mortos.
Um cão dormindo num canto da rua, um homem buscando comida nas latas de lixo. Estamos todos indignados mas eu não fiz nada. Eu continuei meu caminho, eu não sabia exatamente como agir ou o que fazer. Você me culpa, você tem razão. Eu não sou o homem que eu queria ser.
Porque eu estou morrendo aos poucos; tu pode perceber isso quando olha nos meus olhos ou quando ouve a minha voz. E eu sempre sou tão tímido e eu nem sempre sei como agir. Eu queria te amar. Eu queria te dizer isso. Mas eu vou fugir. Não sei quando mas eu vou fugir e como é que ficaremos?
Eu sou fraco mas mesmo assim forte o suficiente para me continuar me levantando e seguir meu caminho em direção ao vazio. A gente só encontra o paraíso quando morre afinal. Antes disso é só a vida exatamente do jeito que ela é, e eu estou tentando aceitar isso, e um dia tudo vai se ajeitar nos meus pensamentos e então eu saberei o caminho.
Eu vi um pássaro voando, sendo livre, sendo vento. Leve e sem preocupações. Eu poderia ser como ele. Eu ainda posso ser como ele. Mas é muito abandono. É muito desapego. Você não vai vir comigo, nós não iremos morar no campo, nossos lençóis não irão secar na sobra abaixo das figueiras, não vai ter criança correndo descalça na grama. A gente poderia se amar, mas é tarde demais, cedo demais, o destino não quer.
Um dia eu vou estar entre as nuvens, e eu estarei pensando em você. Você vai olhar para as estrelas e vai lembrar de mim. Você vai estar bem, eu estarei bem, mas talvez não seremos completos. A felicidade quem é que explica? Tem que amar, tem que ser livre, tem que ser criança, e perdoar. Eu vou perdoar para poder viver.
Obrigado pelas flores. E as guardarei em meu coração quando elas já não mais existirem.